sábado, 12 de abril de 2014

Navio Negreiro

"Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus !
Se é loucura... Se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar porque não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão ?
Astros ! noite ! tempestades !
Rolai das imensidades !
Varrei os mares, tufão !...





Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz ?
Quem ?... Se a estrela se cala,
Se a vaga é pressa resvala
Como um cúmplice fugaz
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz !




São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem a solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...






Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormindo à toa
Sob as tendas da amplidão...
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de finado,
E o baque de um corpo ao mar...






Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cum'lo de maldade
Nem são livres p'ra... morrer...
Prende-os a mesma corrente 
-Férrea, lúgubre serpente -
Nas roscas da escravidão.
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite... Irrisão !...
(Castro Alves)


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