sábado, 10 de maio de 2014

sábado, 12 de abril de 2014

Navio Negreiro

"Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus !
Se é loucura... Se é verdade
Tanto horror perante os céus...
Ó mar porque não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão ?
Astros ! noite ! tempestades !
Rolai das imensidades !
Varrei os mares, tufão !...





Quem são estes desgraçados,
Que não encontram em vós,
Mais que rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz ?
Quem ?... Se a estrela se cala,
Se a vaga é pressa resvala
Como um cúmplice fugaz
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa musa,
Musa libérrima, audaz !




São os filhos do deserto
Onde a terra esposa a luz.
Onde voa em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados,
Que com os tigres mosqueados
Combatem a solidão...
Homens simples, fortes, bravos...
Hoje míseros escravos
Sem ar, sem luz, sem razão...






Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormindo à toa
Sob as tendas da amplidão...
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de finado,
E o baque de um corpo ao mar...






Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cum'lo de maldade
Nem são livres p'ra... morrer...
Prende-os a mesma corrente 
-Férrea, lúgubre serpente -
Nas roscas da escravidão.
E assim roubados à morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoite... Irrisão !...
(Castro Alves)



quinta-feira, 10 de abril de 2014

"Quem ama os livros nunca vai sentir falta de um amigo fiel, de um conselheiro íntegro ou de uma companhia divertida.  Aprendendo e pensando, o leitor assíduo basta a si mesmo em qualquer lugar, em qualquer tempo, seja qual for sua sorte na vida."
(Isaac Barrow)

terça-feira, 8 de abril de 2014

Valsinha

"Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente 
Do que sempre costumava olhar.
E não maldisse a vida tanto quanto era o seu jeito de sempre falar.
E nem deixou-a num canto,
Para seu grande espanto convidou-a pra rodar.
E então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar.
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar.
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar.
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar.
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou 
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu e o dia amanheceu
em paz...
(Chico Buarque)